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Sombras do Berço

O amor não anula o cansaço nem a perda de si mesmo. Um lugar seguro para admitires os dias em que a parentalidade pesa mais do que consegues carregar.

Mural de desabafos

 
 
 
 
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2 entries.
FoxRough FoxRough deixou a sua marca a Junho 22, 2026 at 4:24 pm
Hoje quero contar, o que me está a acontecer e que me tem mantido ausente.

Na semana a seguir à morte do meu pai — precisamente um dia antes da missa de 7.º dia —, a minha filha mais velha decidiu cortar-se com a lâmina de uma afiadeira. Fê-lo porque a coloquei de castigo após a apanhar a tentar ir buscar o tablet à 01h00 da manhã. Os cortes foram muito leves, superficiais; não eram para se magoar, eram para chamar a atenção. Quando a questionei sobre o porquê de o ter feito, a única resposta que obtive foi: "Porque tu nunca me vais deixar ir viver com o meu pai para sempre". Expliquei-lhe que, quando fizesse 18 anos, poderia decidir por ela própria, mas ela não aceita e diz que o quer antes.

Não discuti mais. Estávamos num jantar de aniversário, não era sítio para aquilo, por isso pedi ajuda a uma amiga para falar com ela. Avisei apenas a minha filha de que, ou me deixava desinfetar e tratar os cortes, ou teríamos de ir ao hospital. À minha amiga, ela mentiu: disse que eu berrava com ela, que só a punha de castigo a ela e que lhe chamava nomes como "inútil" e "nojenta" (que são, na verdade, os nomes que ela própria chama à irmã). Quando a minha amiga não acreditou e disse que ia falar comigo por ser algo muito grave, ela foi mais longe e disse que eu lhe batia.

Mais tarde, após o meu namorado lhe prometer que a deixava estar no tablet se ela me deixasse fazer os curativos, todo o stresse passou e ela foi brincar com as outras crianças. O dia seguinte correu normalmente. Durante e após a missa do meu pai ela estava tranquila, a brincar com o telemóvel, a tirar fotos e a fazer vídeos. O resto da semana também foi calmo. No domingo, o pai veio buscá-la e, a partir daí, não foi dito mais nada.

Para entenderem o contexto: o pai só a conhece há dois anos. Ele fugiu do país assim que descobri que estava grávida. Só voltou quando me separei do pai da minha filha mais nova e fomos para tribunal. Ele conheceu-a na instituição. Temporariamente, as minhas duas filhas tinham sido entregues ao pai da mais nova, porque ele tinha uma casa melhor e família como rede de apoio (coisa que eu não tenho). No entanto, foram-lhe retiradas e colocadas numa instituição porque a casa onde eu vivia (que é alugada) necessitava de obras e eu tive de as fazer do meu próprio bolso, já que a senhoria não quis intervir. As minhas filhas ficaram nessa instituição por um ano, e foi lá que o pai da mais velha a conheceu.

Ao final desse ano, a guarda da mais velha foi entregue aos dois, em regime de guarda partilhada e residência alternada (uma semana com cada um), e a mais nova ficou sob a minha guarda total. Isto foi há precisamente um ano. No entanto, neste regime de convivências, o comportamento da mais velha cada vez que chega de casa do pai é completamente inadequado e só tem vindo a piorar.

Inicialmente, vinha com histórias de que o pai só tinha saído do país para trabalhar; depois, a história foi aumentando até ela alegar que eu é que nunca permiti que o pai estivesse com ela. Chegava a minha casa aos berros, chamava nomes à irmã, batia-lhe, faltava-me ao respeito e era completamente mal-educada com os mais velhos. Isto acontecia todas as semanas até ao meio da semana, sendo sempre a segunda-feira o pior dia.

No domingo seguinte, quando voltei para a ir buscar para a minha semana, o pai disse que ela não vinha porque não queria vir. Eu chamei a GNR e avançámos para tribunal. Ele foi ao advogado dele e quer levantar uma queixa de alegados maus-tratos. O pai é alguém com quem é impossível falar: as conversas com ele passam por berros e gritos pelas coisas mais absurdas, chamando-me irresponsável, dando-me ordens e proferindo o mais variado tipo de ofensas. Faz tudo isto à frente da filha, em alta voz, o que me leva sempre a desligar a chamada. Chegou inclusive a enviar-me a foto de um penso higiénico usado da minha filha a questionar o tamanho, perguntando se eu achava aquilo adequado e dizendo que, se eu não sabia, podia perguntar-lhe (era um penso de noite, e eu tinha deixado isso mais do que claro).

Após esta recusa em entregar-me a menina, ainda a tentei ir ver à escola. Ela recebeu-me da pior maneira possível. Disse que não queria estar ao meu pé, que estava muito melhor sem mim. Perguntei-lhe que mal é que eu lhe tinha feito, e ela apenas respondia coisas vagas como "Tu deves saber". Eu disse que não sabia e que queria saber do que me estava a acusar. Ela voltou a referir que eu não a deixava ficar com o pai para sempre. Tudo isto aos gritos, dando o maior espetáculo para que as amiguinhas que estavam à janela ouvissem. Disse-lhe que não lhe admitia faltas de respeito e pedi para baixar a voz, pois estava numa escola.

A dada altura, não aguentei e comecei a chorar. Ela chamou-me "dramática", disse que não queria saber, que eu nunca quis saber dela e que só agora é que estava preocupada. Disse para me preocupar com a minha "filha queridinha". Perguntei-lhe: "Mas quando é que eu deixei de estar presente na tua vida?". Ela respondeu que tudo o que eu dizia era mentira, que quando era mais nova acreditava, mas agora já não acredita em mais nada.

E nisto, estou há duas semanas sem a ver, a aguardar julgamento.
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Fox Fox deixou a sua marca a Março 16, 2026 at 7:39 pm
Bem vindos
Este espaço é para a verdade que ninguém conta sobre ser pai ou mãe. As noites em claro, a exaustão e a culpa não precisam de ser carregadas a solo.
Eu também tenho filhos duas criaturas fantásticas que amo mais que tudo, mas as vezes acho que não sei lhes transmitir isso. A minha relação com os meus pais foi cheia de conflitos de ausências e de responsabilidades que uma criança não deveria ter. Nunca senti amor fraternal e por isso acho que por vezes não sei ser a pessoa mais carinhosa, estou a cria-las sozinha e faço tudo para que nunca nada lhes falte, mas por vezes dou por mim a pensar é suficiente? Sabem que as amo acima de todas as coisas? Como é que dás o que nunca tiveste?
E vocês? Como é a vossa relação com os vossos filhos? Com os vossos país?
Partilhem a vossa história, aqui nunca estaram sozinhos!
Please wait...

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